Um Quintal, Uma Horta: uma ideia que exige mais do que entusiasmo
A proposta presidencial de massificar o projecto “Um Quintal, Uma Horta” encerra méritos difíceis de contestar.
Num contexto de situações como aumento do custo de vida, insegurança e crescente preocupação com as alterações climáticas, incentivar a produção de alimentos junto das famílias parece uma resposta lógica e necessária.
Contudo, entre a força do slogan e a realidade do terreno existe um conjunto de desafios que não deve ser ignorado.
Se bem que nos bairros da periferia das cidades o espaço não é problema, pois a maioria das famílias dispõe de quintais capazes de acolher pequenas áreas produtivas, o mesmo não se pode dizer das zonas centrais.
Aqui, a situação é mais complexa, uma vez que uma parte significativa da população reside em edifícios de habitação colectiva, onde o conceito tradicional de quintal simplesmente não existe ou desapareceu engolido pelas garagens.
Esta realidade levanta uma questão fundamental: até que ponto esta nova narrativa responde à configuração actual e futura das cidades?
A experiência internacional mostra que a agricultura urbana bem-sucedida tende a diversificar modelos. Em cidades como Havana, Cuba, ou em diversos municípios brasileiros, a aposta não se limitou ao espaço doméstico, mas integrou hortas comunitárias, jardins produtivos em escolas, áreas públicas convertidas para produção alimentar e aproveitamento de coberturas de edifícios.
O foco deixou de ser apenas a unidade familiar para incluir a escala comunitária e urbana.
Os edifícios de habitação representam, por sua vez, um desafio próprio. Embora os terraços e varandas possam ser aproveitados para hortas verticais ou jardins produtivos, surgem questões relacionadas com a capacidade estrutural das construções, o consumo de água, a manutenção dos espaços e a gestão colectiva dos recursos.
Uma horta num prédio exige níveis de organização que muitas vezes os condomínios já têm dificuldade em alcançar para tarefas mais básicas, como limpeza, segurança ou manutenção das áreas comuns.
Outro aspecto central é o saneamento.
A promoção da compostagem doméstica pode contribuir para reduzir o volume de resíduos sólidos enviados para as lixeiras municipais.
No entanto, quando realizada sem orientação adequada, pode transformar-se numa fonte de maus odores, proliferação de insectos e atracção de roedores.
O mesmo se aplica ao armazenamento inadequado de água para irrigação, que pode favorecer a reprodução de mosquitos, particularmente preocupante num país onde doenças transmitidas por vectores continuam a representar um desafio de saúde pública.
Há ainda uma dimensão económica que merece reflexão. Produzir alimentos em pequena escala pode reduzir despesas familiares, mas dificilmente substitui os circuitos comerciais de abastecimento urbano.
A questão ambiental também exige uma abordagem equilibrada. É verdade que mais áreas verdes podem contribuir para reduzir ilhas de calor e melhorar a qualidade do ar. Porém, se a expansão das hortas ocorrer de forma desordenada, com uso excessivo de fertilizantes químicos ou ocupação de zonas de drenagem, os impactos podem ser contrários aos objectivos inicialmente definidos.
Comparando com outras abordagens urbanas, observa-se que algumas cidades têm apostado em programas integrados de agricultura urbana, articulando produção alimentar, gestão de resíduos, educação ambiental e ordenamento territorial.
Nesses casos, a horta não é vista como um fim em si mesmo, mas como parte de uma estratégia mais ampla de sustentabilidade urbana.
Talvez seja essa a principal lição para Moçambique.
A massificação do projecto “Um Quintal, Uma Horta” pode representar uma oportunidade importante para fortalecer a segurança alimentar e promover uma cultura de sustentabilidade. Contudo, o sucesso da iniciativa dependerá menos do entusiasmo da narrativa e mais da capacidade de responder a questões estruturais: onde produzir, como produzir e como garantir que os benefícios se mantenham ao longo do tempo.
Em última análise, o verdadeiro desafio não está em criar hortas, mas em construir cidades capazes de integrar a produção alimentar, a gestão ambiental e a qualidade de vida num mesmo projecto de desenvolvimento urbano