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Reportagem

DE INFERNO AMBIENTAL A PARAÍSO VERDE

As autoridades municipais da capital do país voltam a fazer soar o sino da contagem decrescente para o encerramento da lixeira de Hulene. Desta vez garantem que a promessa é mesmo para levar a sério e visão é transformar aquele inferno ambiental, num próspero projecto de desenvolvimento da economia circular.

São 25 hectares de um terreno que, há mais de três décadas recebe, diariamente, mais de mil toneladas de lixo de todo o tipo. Do orgânico ao inorgânico, a lixeira de Hulene é um amontoado de resíduos empilhados que atingem hoje uma altura equivalente a um edifício de quase 10 andares.

Através de um Concurso Público lançado recentemente, o município da capital pretende seleccionar, até ao final do ano em curso, uma empresa com capital e expertise para que, de uma vez para sempre, a lixeira de Hulene deixe de ser o cemitério do lixo da capital e uma das principais fontes de problemas ambientais do país.

“O que nós procuramos é uma empresa ou consórcio que nos apresente as melhores soluções para aquela lixeira e que tenha capacidade para executar o projecto para um encerramento sustentável e rentável”, explicou João Munguambe, Vereador de Infraestruturas e Saneamento da capital.

Com organizações ambientalistas e, mais recentemente, o Tribunal Administrativo, a exigirem o encerramento daquele depósito, o município garante que a área ainda tem três anos para atingir o seu limite de encaixe, mas, assegura que até 2027, aquele espaço vai passar a contar uma nova história.

Refira-se que, o custo para o encerramento, que vai desde a mitigação dos riscos, recobrimento dos solos, de entre outras actividades é estimado entre 9 a 11 milhões de dólares.

Liderar a economia circular

Durante a entrevista com a Revista Terra, João Munguambe deixou saliente que a edilidade vinha recebendo manifestações de interesse de algumas empresas, nacionais e internacionais, a solicitarem licenças para explorar a maior lixeira do país,nomeadamente, para fins de produção energética e outros aproveitamentos no âmbito de iniciativas de desenvolvimento da economia circular, contudo, a decisão foi pela necessidade de um concurso público onde será escolhida a melhor solução, quer em termos de expertise, mas, também em receitas para o próprio município.

“Para nós, o ideal seria encontrar uma empresa ou consórcio que faça o aproveitamento de todo o lixo ali existente, desenvolvendo uma cadeia completa de economia circular, mas, também, que ofereça uma componente financeira favorável para o município”, realçou.

Uma das ideias que, parece poder encantar a edilidade é a de desenvolvimento de uma indústria que, para além de aproveitamento do lixo daquele espaço, continue a ser absorver as enormes quantidades produzidas na capital, de modo a que, o aterro que está a ser projectado no distrito municipal da Ka Tembe, seja apenas para um certo tipo de resíduos.

Lixeira da sobrevivências 

O maior depósito a céu aberto de resíduos sólidos do país conta várias histórias, algumas de amor pelo valor do lixo e outras, de tragédias visíveis e invisíveis.

De acordo com dados das autoridades municipais, cerca de um milhar de pessoas, entre jovens, crianças e mulheres adultas, ganham a vida a partir da lixeira de Hulene, sobretudo, como catadores de objectos para reaproveitamento ou transformação pela indústria da reciclagem.

Alberto Cau faz parte de uma espécie de cartel de jovens que dominam as actividades no interior da lixeira de Hulene.

Junto com dezenas de amigos, determinam o que entra em cada ala da lixeira e, de entre outros privilégios, são os primeiros a fazer a vasculha em cada camião que ali se desloca.

Questionado pela nossa reportagem sobre o que pensa do encerramento da lixeira disse num tom incrédulo que “já ouvi isso muitas vezes”. Confrontado com a informação do lançamento de um concurso público para o efeito disse, sem querer se alongar “quando isso acontecer, terão que falar connosco”.

Perigos invisíveis

Mas, ao nível ambiental há vários elementos visíveis e invisíveis que fazem daquele local nocivo para os milhares de residentes de parte dos bairros de Hulene e Mavalane.

Alguns residentes ouvidos pela Revista Terra, apontam o mau cheiro, as moscas e os mosquitos, como sendo os principais aspectos que geram maior incômodo resultante da lixeira.

“Eu vivo aqui desde a década de 1980. Todos os meus filhos (cinco) nasceram nesta casa e já estamos habituados a viver próximo da lixeira. Convivemos com mau cheiro que, às vezes, é intenso e, no verão, o maior encömodo são as moscas e os mosquitos, mas, já nos habituamos”, disse Alice Mabanjo, residente no Hulene A.

Um estudo ambiental intitulado “Modulação dos Impactos Ambientais e de Saúde nos Arredores da Lixeira de Hulene”, produzido pelo investigador da Universidade Pedagógica de Maputo, (UP-Maputo), Bernardino José Bernardo, identificou forte presença de chumbo, cobre, manganês e cobalto como principais produtos químicos, prejudiciais a saúde, e que abundam nos solos das imediações da lixeira.

A pesquisa revelou a prevalência de altos níveis de contaminação de solos, incluindo a produção nas hortas situadas distantes da lixeira e, com alguma possibilidade de contaminar a canalização da água consumida pelos moradores, o que mostra uma perspectiva invisível do problema provocado.

O município diz estar ciente dos problemas ambientais que a lixeira de Hulene provoca e por isso, o vereador João Munguambe assegurou que “o modelo que estamos a projectar para o aterro de Ka Tembe será ambientalmente saudável e sustentável”.

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