O que a agricultura de Moçambique pode aprender com a Amazónia?
Em memória de Amade Camal, que partilhava o mesmo sonho.
Em 2024, viajei para uma região de que nunca tinha ouvido falar: Tomé-Açu, um pequeno município no Estado do Pará, no norte do Brasil, a poucas horas de Belém, em plena Amazónia brasileira.
O objetivo era simples: visitar uma fábrica de processamento de frutas, com especialidade na produção de sorvetes e polpas para sumos.
A ideia era percebermos, in loco, o que seria necessário em termos de infraestrutura para replicarmos, ou pelo menos aprendermos, para um projecto de processamento de frutas em Muxúngue, uma região conhecida em Moçambique por produzir enormes quantidades de ananás, cuja maior parte da produção acaba por se perder pela inexistência de uma cadeia de valor de preservação e transformação da mesma.
De facto, visitámos a fábrica e ficámos impressionados pela qualidade da infraestrutura, pelos frigoríficos ultracongelantes e pela qualidade dos produtos finais.
Impressionante, mas muito acima do que tínhamos capacidade de implementar, do ponto de vista financeiro e técnico.
Mas, se esse era o objectivo principal, rapidamente a minha atenção desviou-se para a história daquela região e, em particular, para como uma crise gerada pela monocultura da pimenta-do-reino levou os agricultores, organizados através de uma cooperativa denominada CAMTA, a desenvolverem um inovador sistema agrário denominado SAFTA — hoje reconhecido em fóruns internacionais como um dos exemplos mais consistentes de agricultura sustentável.
Para compreender essa história, fui visitar o Museu da Imigração Japonesa, onde fiz uma viagem no tempo até ao ano de 1929, altura em que chegaram, através de uma embarcação precária, os primeiros imigrantes, que saíram do Japão num período de crise económica e social, marcado também por forte pressão demográfica, com o objectivo de colonizar essa zona isolada da Amazónia brasileira através do cultivo do cacau, de hortaliças e do arroz.
A floresta, no entanto, rapidamente mostrou que não seria um território fácil.
O isolamento, as doenças tropicais, a falta de infraestrutura e o fracasso dos primeiros cultivos impuseram anos de pobreza extrema.
Muitas famílias abandonaram a região em busca de melhores condições noutras cidades do Brasil.
Foi nesse contexto que surgiu a Cooperativa Agrícola Mista de Tomé-Açu, a CAMTA. Mais do que uma simples organização económica, tornou-se uma estrutura de sobrevivência colectiva.
Num território difícil, onde cada produtor isolado teria pouca capacidade de resistir, a cooperativa permitiu organizar a produção, partilhar conhecimento, negociar melhor e construir uma base comum de adaptação à realidade amazónica.
Esta base organizativa permitiu que essa comunidade prosperasse mais tarde, com o plantio da pimenta-do-reino, que, após a Segunda Guerra Mundial, transformou Tomé-Açu num importante polo de produção e exportação.
A pimenta passou a ser conhecida como o “diamante negro” e trouxe riqueza à região.
Porém, 30 anos mais tarde, na década de 60, o sucesso da pimenta-do-reino convergiu a produção numa monocultura, que levou ao aparecimento de uma doença denominada fusariose, que dizimou os plantios e expôs os riscos da dependência de um único produto.
A fusariose não destruiu apenas a cultura. Destruiu o modelo. E foi precisamente nesse momento de crise que a CAMTA se tornou decisiva.
O que salvou Tomé-Açu não foi um produto — foi uma estrutura.
A resposta a esta grave crise não veio de uma nova cultura milagrosa, mas do entendimento de que era necessário introduzir um novo modelo de organização da produção.
A partir da década de 70, os agricultores começaram a combinar espécies frutíferas, florestais e agrícolas numa mesma área, recuperando os solos, diversificando rendimentos e, naturalmente, reduzindo a dependência de uma só cultura.
Esse movimento foi também incentivado pelas políticas de protecção da floresta amazónica, que impossibilitaram o avanço dos campos agrícolas para dentro da floresta, tal como era prática.
A floresta deixou de ser vista apenas como um obstáculo à produção e passou a ser uma fonte de inspiração para a emergência do Sistema Agroflorestal de Tomé-Açu, o SAFTA.
Na teoria, é difícil entender esse conceito. Tal como muitos moçambicanos, a minha principal referência de uma agricultura industrializada eram os campos extremamente organizados, com sistemas de rega impecáveis, que víamos no caminho entre Ressano Garcia e Nelspruit. Linhas perfeitas, máquinas, pivôs de irrigação, talhões simétricos. Era essa, para mim, a imagem de uma agricultura moderna.
Mas, quando tive a oportunidade de visitar um dos campos de Tomé-Açu, o que vi foi o contrário dessa imagem: uma floresta que era também uma farma.
À primeira vista, parecia quase desorganizada. Havia árvores de diferentes alturas, plantas em diferentes fases de crescimento, sombras, folhas secas no chão, caminhos estreitos e uma mistura de culturas que não obedecia à lógica visual dos campos agrícolas convencionais.
Só depois se percebe que aquela aparente desordem obedece a uma lógica muito precisa. No SAFTA, diferentes culturas são plantadas na mesma área, mas com funções e tempos diferentes.
Algumas culturas têm ciclos curtos e geram rendimento mais rápido.
Outras, como o cacau, o açaí, o cupuaçu ou a pimenta-do-reino, têm ciclos mais longos e sustentam a produção ao longo dos anos. E há ainda espécies florestais, incluindo árvores de maior porte, que podem ter um horizonte de 20 ou 30 anos, seja pela madeira, pela sombra, pela protecção do solo ou pelo equilíbrio ecológico que introduzem no sistema.
As árvores maiores criam um microclima. Protegem as plantas menores e mais frágeis do excesso de sol, do vento e das intempéries.
Os galhos, as folhas e os restos orgânicos que caem no chão transformam-se em matéria orgânica e funcionam como uma espécie de adubo natural.
As raízes ajudam a estruturar o solo, a conservar humidade e a manter viva a biodiversidade que sustenta a própria produção.
O que parecia acaso era, afinal, planeamento. O que parecia floresta era também uma unidade produtiva.
E o que parecia ausência de ordem era, na verdade, uma organização mais sofisticada do que aquela que eu estava habituado a reconhecer. Porque ali a produtividade não dependia de dominar a natureza, mas de compreender os seus ciclos e trabalhar com eles.
Talvez tenha sido essa a imagem mais forte da visita: perceber que uma plantação podia parecer floresta e, ainda assim, ser profundamente económica. Não uma sucessão de campanhas agrícolas, mas uma arquitectura produtiva de longo prazo — onde cada cultura tem o seu tempo, a sua função e o seu lugar.
Como não podia deixar de ser, foi aí que os meus pensamentos regressaram a casa: ao sonho de um Moçambique capaz de se industrializar do ponto de vista agrícola, e à forma como esta rica experiência poderia ajudar-nos.
Por um lado, a fábrica que vi remetia-me aos agricultores de Muxúngue — e a tantos outros ao longo do país — que produzem quantidades enormes de um ananás doce e magnífico, mas continuam presos na armadilha da pobreza.
A mesma que os pioneiros japoneses tinham sido capazes de ultrapassar. Esse ananás acaba por ser vendido a um preço irrisório ou simplesmente por apodrecer, por falta de capacidade de escoamento e processamento que permita agregar valor e aumentar o tempo de conservação.
Por outro lado, o SAFTA levou também os meus pensamentos para os produtores da Zambézia, que perderam hectares e hectares de coqueiros devido ao amarelecimento letal, uma doença que devastou uma das culturas mais importantes da província.
Ali, como em Tomé-Açu, a dependência de uma cultura dominante mostrou a fragilidade de todo um sistema produtivo.
Quando o coqueiro adoeceu, não foi apenas uma árvore que se perdeu. Perdeu-se rendimento, emprego, indústria local e parte da base económica de comunidades inteiras.
Foi nesse contraste que a experiência de Tomé-Açu se tornou mais forte para mim.
A fábrica mostrava a importância de transformar a produção local. O SAFTA mostrava a importância de não depender de uma só cultura. Juntos, apontavam para uma mesma lição:
Não basta produzir mais; é preciso organizar melhor, diversificar melhor e ligar o campo à indústria de forma mais justa e sustentável.
O elemento agregador de tudo isto era a CAMTA. A CAMTA não é apenas uma formalidade jurídica ou um estatuto, como acontece com muitas das nossas associações.
É uma organização com vida interna real.
Os seus membros participam activamente, respeitam regras comuns, cumprem mínimos de produção, elegem regularmente os seus representantes e reconhecem a cooperativa como uma estrutura legítima de decisão, negociação e representação.
Essa vida interna é talvez uma das maiores lições de Tomé-Açu. A CAMTA não se limitou a juntar agricultores no papel.
Construiu confiança, disciplina colectiva e credibilidade externa. Foi essa credibilidade que lhe permitiu tornar-se uma verdadeira interface entre os produtores, o mercado, as instituições e os financiadores.
A instalação da agroindústria de polpas de frutas, em 1987, com apoio financeiro do Governo Japonês, não aconteceu por acaso.
A fábrica, os frigoríficos e a capacidade de processamento só foram possíveis porque existia, por trás, uma organização transparente, enraizada e capaz de unir a força de muitos pequenos agricultores numa estrutura comum.
É aqui que a experiência de Tomé-Açu dialoga directamente com Moçambique. Temos políticas agrícolas, planos estratégicos e capacidade produtiva, ainda que muitas vezes artesanal.
Produzimos, em várias regiões, mais do que conseguimos escoar. Muita fruta apodrece ou perde valor antes de chegar ao mercado.
O que falta, muitas vezes, não é apenas produção. Falta uma organização aglutinadora, capaz de unir agricultores numa voz comum, ordenar a produção, negociar melhor, atrair financiamento, ligar o campo à indústria e criar confiança entre produtores, compradores e instituições.
Mas essa organização não pode ser apenas administrativa. Tem de ter vida interna. Tem de pensar, reflectir, aprender e adaptar-se. Tem de integrar práticas locais, tradições, conhecimento empírico e formas próprias de lidar com o solo, a água, a floresta e o clima. E tem de transformar tudo isso em inovação.
Quando se fala de inovação agrícola, pensa-se quase sempre em drones, fertilizantes sofisticados, sensores, inteligência artificial ou grandes sistemas mecanizados.
Tudo isso pode ser importante. Mas a experiência de Tomé-Açu mostra que a inovação também pode nascer do convívio profundo com a realidade local.
Pode nascer da observação da floresta, da leitura dos ciclos climáticos, da experiência acumulada dos agricultores e da capacidade de organizar esse conhecimento num sistema produtivo mais inteligente.
Modelos não se importam como máquinas.
O que Moçambique precisa não é de copiar o SAFTA nem a CAMTA. O que precisamos é de aprender com essa história e criar o nosso próprio modelo — enraizado na nossa realidade, nas nossas comunidades, nos nossos produtos, nas nossas florestas, nos nossos riscos e nas nossas possibilidades.
Os primeiros imigrantes japoneses chegaram a Tomé-Açu sem língua, sem capital e sem conhecimento daquele território.
Construíram uma cooperativa, sobreviveram a uma crise e criaram um modelo que hoje o mundo estuda. Se eles conseguiram, a pergunta para Moçambique não é se pode. É quando começa — e se está disposto a construir as instituições, a disciplina colectiva e a visão de longo prazo que permitam transformar produção em valor, sem transformar desenvolvimento em destruição.
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Agradecimentos: À CAMTA — Cooperativa Agrícola Mista de Tomé-Açu — pela hospitalidade e generosidade no acolhimento desta visita.
Um agradecimento especial a Alberto Ke Iti Oppata, Dinaldo Santos e Edmundo Masato Watanabe, que partilharam o seu conhecimento e a sua história.