Previsão sem prontidão

Moçambique enfrenta mais uma vaga de cheias com impactos severos sobre vidas, infra-estruturas e meios de subsistência. O cenário repete-se com uma regularidade inquietante. A diferença, hoje, é que não nos falta informação.

Os serviços meteorológicos nacionais têm cumprido um papel crucial: monitoram, preveem e alertam com antecedência sobre chuvas intensas, cheias iminentes e riscos associados.

A ciência faz a sua parte. O problema começa quando o alerta não se transforma, a tempo, em acção eficaz.

Ano após ano, os planos de contingência mostram fragilidades na execução. Persistem atrasos na evacuação, falhas na protecção de infra-estruturas críticas, insuficiente pré-posicionamento de meios e uma coordenação que reage mais do que previne.

O resultado é um país informado, mas pouco preparado — um paradoxo caro, medido em perdas humanas, agrícolas e económicas.

A informação atempada só salva vidas quando é operacionalizada com disciplina, liderança e recursos no terreno.

A experiência internacional demonstra que é possível fazer melhor. O Bangladesh, por exemplo, transformou sistemas de alerta precoce em decisões rápidas e descentralizadas, investindo em educação comunitária, abrigos resilientes e cadeias claras de comando. Não eliminou os riscos climáticos, mas reduziu drasticamente as perdas.

A lição é simples: prontidão não é um documento anual; é um sistema vivo que treina, testa e actua antes da crise.

As cheias voltam a desafiar-nos. Que sirvam, desta vez, para fechar o ciclo entre previsão e prevenção. A informação existe. Falta convertê-la em prontidão efectiva — a única resposta capaz de minimizar danos num país cada vez mais.