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Internacional

40 anos depois do Live Aid: Etiópia, ainda refém da fome
Em Julho de 1985, o mundo uniu-se para cantar contra a fome na Etiópia. O concerto, celebrizado como Live Aid, transmitido para mais de um bilião de pessoas, mobilizou artistas, políticos e milhões de dólares em doações. Quatro décadas depois, o país que inspirou um dos maiores movimentos de solidariedade global continua marcado por crises alimentares cíclicas.
As imagens de crianças subnutridas nos campos de refugiados de Korem e Mekelle, que chocaram o mundo nos anos 80, voltaram a circular em 2024, agora com novos protagonistas: deslocados pela guerra no Tigray, mudanças climáticas extremas e colapsos agrícolas recorrentes. A Etiópia, com mais de 120 milhões de habitantes, continua a depender de ajuda externa para alimentar milhões dos seus cidadãos.
Segundo dados recentes do Programa Mundial de Alimentação, cerca de 20 milhões de etíopes enfrentam insegurança alimentar severa em 2025. O número é quase tão dramático quanto o dos anos que antecederam o Live Aid.
Especialistas apontam que o problema não está apenas na escassez de alimentos, mas na instabilidade política e nas alterações climáticas, que tornaram as secas mais frequentes e devastadoras. A guerra civil no Tigray (2020-2022), a repressão noutras regiões e a má gestão de recursos agravaram o cenário.
“As causas da fome mudaram de forma, mas não de essência: continuam ligadas à desigualdade, ao conflito e ao abandono político das populações mais vulneráveis,” explica Mulugeta Alemayehu, analista etíope de políticas alimentares.
A Etiópia de hoje é diferente da de 1985: tem crescimento económico urbano, infraestruturas renovadas e um sector agrícola mais mecanizado em certas regiões. Contudo, o contraste entre o progresso e a persistência da fome levanta questões profundas sobre a eficácia da ajuda internacional e a responsabilidade dos próprios governos africanos.
O legado do Live Aid é ambíguo. Enquanto símbolo, serviu para despertar consciências e mobilizar solidariedade. Mas como solução estrutural, falhou. A fome na Etiópia não foi erradicada — apenas silenciada por ciclos noticiosos e esquecida fora das manchetes.
Quarenta anos depois, a pergunta persiste: como é possível que um país receba milhões em ajuda alimentar por décadas, e ainda assim falhe em garantir o direito básico à alimentação? A Etiópia é um espelho do continente — onde a fome não é apenas ausência de comida, mas ausência de justiça.
A luta contra a fome precisa deixar de ser episódica e caritativa, para se tornar política, permanente e transformadora. O concerto passou. A fome, infelizmente, ficou.

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